Olhar desleixado

Marcus passou desleixadamente o dedo pelas notificações do celular, o dedo enroscando de leve nas trincas da película de acrílico a muito puída. Seus olhos cansados ofuscavam-se ante a claridade descompensada da tela. Nada de relevante, apenas mais do mesmo, ele tinha em suas mãos conexão com o mundo inteiro, mas parecia receber uma enxurrada viciosa de mensagens.

Entediado ele levantou a cabeça, olhou as pessoas à sua volta, o ponto de ônibus estava cheio como sempre, teve sorte de conseguir um cantinho para se sentar no metal frio, conversas farfalhavam a sua volta, era um final de tarde típico.

O céu estava rubro em meio aos prédios da cidade, luzes de faróis passavam em ritmo frenético, era hora do rush. Marcus soltou um suspiro enquanto se encolhia dentro de sua blusa depois de receber uma rajada de vento frio. Estava cansado, se sentia velho e infeliz.

O ônibus parou com um estampido, este também era velho. Morosamente Marcus subiu os degraus, usou seu vale transporte e foi procurar um assento suficientemente confortável. Para sua infelicidade seu lugar habitual estava ocupado por um homem engravatado. 

Ao aproximar-se, já sem esperanças e começando a busca por uma alternativa, foi surpreendido, o homem levantou-se e ofereceu-lhe o lugar, sentando-se ao lado. Contente Marcus se acomodou, tirou o celular do bolso e plugou os fones de ouvido, pronto para enfrentar a viagem para casa.

Enquanto começavam as batidas da música habitual, intercaladas aos solavancos também habituais do velho ônibus, Marcus permitiu perder-se em pensamentos olhando pela janela, a cinzenta paisagem humana que passava em vultos. Mas logo foi arrebatado, apagada a luz do ônibus uma claridade refletia na janela diretamente contra seu rosto, alguém manuseava uma lanterna de celular.

Marcus tinha por hábito ser uma pessoa pacata, não gostava de conflitos, vivia seus dias e sua rotina assim. Entretanto agora algo o arrancara disso, de dentes cerrados e cabeça fervilhando ele voltou seu olhar para o interior do ônibus.

Olhou inquisitivamente procurando a fonte das suas frustrações, descobriu o mesmo homem que havia lhe cedido o lugar. Estava debruçado sobre si mesmo, com uma mão segurava o celular com a lanterna ligada e com a outra revirava folhas com anotações.

Ônibus escuro, silhuetas de pessoas
Ônibus escuro. Foto de Bruno Montine

A raiva inundou o espírito de Marcus, seu desejo era de estrangular o homem pela atitude irracional, se queria ler, bem que lesse na tela do aparelho ao invés de ficar usando a lanterna do celular e rompendo com os devaneios alheios. 

Mas foi em meio a sua ira que ele notou de fato o homem, era um senhor de meia idade, cabelos já bem grisalhos e ralos, apesar de impecavelmente. O terno de cor escura, apesar de limpo, não era novo e os sapatos, bem engraxados, tinham sinais de desgaste. Esta composição chamou a atenção de Marcus, seria ele um homem religioso? 

Aos poucos a raiva arrefeceu e o rapaz então fez aquilo que qualquer pessoa sensata faria, mas raramente confessaria, decidiu espiar o que o senhor estava lendo. É trabalhoso se esgueirar para olhar sobre os ombros de outra pessoa, especialmente se a intenção é não parecer estar espreitando. Sendo assim Marcus o fez com cautela, o homem não pareceu esboçar reação que denunciasse perceber a espiada do jovem.

A caligrafia era clara, algo raro nas gerações habituadas a escrita com teclados e telas de celular, mas evidência de uma pessoa que aprendeu a ter esmero na escrita. Eram anotações a respeito do Código Processual Civil, assunto que deixou Marcus ainda mais curioso, afinal o homem não parecia um advogado. Pensou que talvez fosse um professor, mas então percebeu os dedos calejados, não se encaixava bem ao papel.

– Estou atrapalhando amigo? Perguntou quase num sussurro o homem, Marcus por pouco não notou que ele falava, mas quando percebeu os lábios se mexendo foi logo tirando os fones.

Constrangido e sem saber o que dizer, por se sentir pego no flagra, apenas sacudiu vigorosamente a cabeça. 

– Desculpa, é que tenho prova hoje na faculdade, estou relendo minhas anotações, tive pouco tempo hoje; o homem havia se voltado para ele com um sorriso amistoso.

– Você não me atrapalhou; argumentou Marcus ainda sem jeito.

Só depois ele notou a mochila desgastada entre suas pernas. Focara-se tanto no que ele julgava ser o uso inadequado do celular, que não havia sequer cogitado essa ideia.

Pelo resto do caminho, aos solavancos do ônibus, se viu consumido pelo pensamento de que ele, jovem, com plenas habilidades no uso de seu celular, parecia ter menos determinação do que aquele homem, que para muitos já passara da idade de fazer faculdade e ter sonhos. Mas ele estava debruçado num ônibus se preparando para provas num curso de direito, enquanto o jovem estava resignado a sua rotina, sem sonhos.

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