Capitã Marvel e a Jornada por Igualdade

Capitã Marvel e a Jornada por Igualdade

No dia 8 de Março de 2019 realizou-se o mundialmente aclamado lançamento do filme Capitã Marvel. Uma obra cinematográfica ambientada no Universo Marvel, trazendo uma nova personagem para o enredo integrado dos Vingadores. Contudo, um detalhe não menos importante é a escolha desta data para o lançamento desta obra.

Uma mulher em sua jornada.
Foto por Bruno Montine

Como já foi abordado no texto referente ao legado de Stan Lee, o universo dos quadrinhos muitas vezes é a válvula de escape para que assuntos, muitas vezes evitados pela sociedade, sejam trazidos a tona. O universo cinematográfico construído pela Marvel na última década, potencializou esta faceta dos quadrinhos, raiz dos super-heróis apresentados. Dentro deste contexto Capitã Marvel trouxe mais uma vez a luta pela igualdade de gênero.

Oito de Março

O dia oito de Março foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Dia Internacional da Mulher. Diferentemente do que se possa inocentemente imaginar, não há relação desta data com uma exaltação bucólica a figura feminina. Muito pelo contrário, este foi na verdade um marco de reconhecimento pelo esforço militante de milhares de mulheres que por décadas haviam pleiteado, em meio a piquetes e manifestações, direitos e sobretudo: igualdade.

Fugindo a ingenuidade de presumir que seja uma coincidência, Capitã Marvel foi sim lançada no Dia Internacional da Mulher com uma mensagem clara, habilmente tecida em meio a um enredo de tramas e combates cósmicos. A história de Carol Danvers, que durante toda sua vida se viu sobrecarregada com a aparente necessidade de “provar o seu valor”, mas nunca sendo considerada boa o bastante.

Uma heroína para representar todas as mulheres

A trajetória de superação da heroína, que vê-se subestimada e impedida de alcançar todo seu potencial em todas as fases da sua vida, começando na infância, com o pai querendo impedi-la de correr no karting, junto com outros meninos, passando pela adolescência em que tentaram intimidá-la nos jogos de baseball para errar. Chegando a vida adulta, sendo perseguida e insultada por decidir tentar uma carreira como piloto da Força Aérea. Culminando em sua ascensão como heroína, onde também foi manipulada e subestimada por seu mentor. Estas revoltantes experiências da heroína demonstram o cotidiano de muitas mulheres, que por toda sua vida se vêem obrigadas a se submeter a provar seu valor.

Capitã Marvel usando seus poderes em um vôo espacial.
Releitura da personagem feita por Fausto Monpean.

A dificuldade de uma jovem programadora

Procurando situar de forma mais clara esta realidade da dificuldade das mulheres, o Locomotiva entrevistou uma jovem que enfrenta este mesmo tipo de dilemas.

Ingrid, 23 anos, formada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Jovem que apesar de sempre ter se destacado nas matérias de programação, inclusive classificando-se em competições a nível nacional, teve dificuldades em conseguir oportunidade para trabalhar na área, tendo de procurar oportunidades em outras áreas.

Locomotiva: Qual impacto você julga que o fato de você ser mulher teve, tanto na sua formação acadêmica quanto na sua colocação no mercado de trabalho?


Ingrid: Começa pelo fato de sermos minoria, há sempre alguém nos olhando com olho torto, principalmente quando nos destacamos, acaba parecendo que nossas conquistas não tem o mesmo valor. Quando participamos de uma maratona de programação, os outros competidores sempre nos olhavam com desdém, como se não fossemos capazes. Quando estávamos em vantagem, já aconteceu de alguns se retirarem da competição e depois insinuarem que estávamos sendo favorecidas pelos avaliadores ou usando de trapaça.
Tristemente era raro quando avançávamos de fase e encontramos outra equipe feminina, sempre há uma pressão extra sobre nós.


Locomotiva: Você diria que nos processos seletivos dos quais participou você na maioria das vezes não teve oportunidade de demonstrar a sua competência, mas foi simplesmente julgada por ser mulher?


Ingrid: Sim, a sensação é de que o fato de muitas vezes ter um concorrente homem pressupõe que ele já detenha conhecimento e eu seja esforçada. Isso quando não jogam, já no começo da entrevista, a ideia de que a equipe de desenvolvimento tem apenas homens e que eu vou me sentir desconfortável. Acho isso absurdo porque eu, assim como qualquer mulher, pode ser tão ou até mais competente que um homem, mas quando não dão a chance de provar, reforçam essa ideia e parece que tudo fica mais difícil.
Sempre parece haver dúvidas sobre a nossa capacidade, parece que temos que provar e comprovar muito mais antes de nos dar uma oportunidade.


Locomotiva: Essa sensação de que sua capacidade é julgada pelo seu sexo, mais do que pela sua capacidade e habilidades, te desmotiva e faz querer mudar de área?


Ingrid: Sim, desmotiva e por uma questão de necessidade acabei por tentar me arranjar em outras áreas. Apesar de gostar muito de programar, hoje trabalho com atendimento numa loja, e planejo procurar mais formação nesta área em que tive oportunidade de trabalhar.


Locomotiva: Você sente que há uma pressão social para que as mulheres se dediquem a determinadas funções e áreas, como por exemplo administração, vendas, recursos humanos? Se sim, quanto disso você atribuiria a crença de que mulheres não tem, por exemplo, capacidade lógica para trabalhar bem como programadoras, que são mais emotivas?

Ingrid: Olha, é engraçado, mas eu sou um exemplo de como esse tipo de pensamento, que existe sim, infelizmente, está errado. Eu tenho muita dificuldade em me comunicar, como agora tenho trabalhado com vendas, estou tendo de superar essa dificuldade, mas sinceramente não é meu forte, sempre amei e tive facilidade com lógica e matemática. Acho que as pessoas não devem ser pré julgadas pelo seu gênero, cada um tem uma facilidade, uma aptidão e isso é independente de gênero.


Locomotiva: Foi citada a questão de mulheres e homens trabalharem juntos, num possível esforço das empresas para evitar casos de assédio. Você discorda da ideia de ambientes de trabalho exclusivamente masculinos ou femininos?


Ingrid: Discordo, eu trabalhei em uma fábrica num ambiente em que a maioria das pessoas eram homens, nunca fui desrespeitada e trabalhamos bem juntos. Acho que homens e mulheres podem sim trabalhar bem no mesmo ambiente, mais do que isso, sou contra a ideia de que as empresas têm que ter cotas de contratação feminina, acho sim que devem-se dar oportunidades justas para que as mulheres possam concorrer às vagas de trabalho.


Locomotiva: Qual seria seu desejo para um futuro melhor?


Ingrid: Igualdade, nem mais, nem menos. Um futuro em que não sejam necessárias cotas para que as mulheres possam entrar no mercado de trabalho, mas que o respeito e a igualdade sejam o padrão.

Quando a arte retrata as desigualdades

É visível, ao traçarmos um paralelo entre a sucinta apresentação do enredo de Capitã Marvel e a entrevista de Ingrid que há sim injustiças no nível de oportunidades e principalmente nas cobranças sociais, no que tange a questão de gênero. O enredo que mostra Carol Danvers como piloto de testes, apesar de seu talento e habilidade, simplesmente por mulheres não terem autorização de pilotar em combate parece surreal, mas note que a primeira brasileira a pilotar um caça da Força Aérea Brasileira, a então Tenente-aviadora Carla Borges, só o fez em 2011. Portanto, apesar das conquistas históricas, muito há de se rever sobre a igualdade de oportunidade, o velho “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”, como eram taxadas determinadas funções.

Segundo dados do Banco Mundial 62% do capital gerado no planeta provém da população masculina, o que longe de evidenciar uma questão de competência, mostra na verdade a injustiça da desigualdade de oportunidades. Em especial em muitos países do Oriente Médio, em que a única ocupação aceitável para mulheres são com mães e donas de casa. Além disso, mesmo em países em que pode-se trabalhar, como o Líbano, mais de 20% da população feminina vive a realidade do desemprego, em países como o Egito a mais de 60%. Isto sem citar os alarmantes números referentes a educação de meninas, que comprometerão o futuro da população feminina nestes países por gerações.

Portanto, percebe-se que a luta feminina por espaço, retratada na trama de Capitã Marvel, está distante de ser simples componente dramático para endossar a jornada de uma heroína, é a representação da luta de milhões de mulheres, que como Carol Danvers querem ter o direito de ter sua competência reconhecida em igualdade de oportunidades. Questão perfeitamente resumida na frase da heroína ao derrotar seu antigo tutor e algoz Yon‑Rogg: “Eu não tenho que te provar nada”.

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