Os pés que massacram as folhas

O vento outonal anima o ar, pés se agitam indiferentes a mudança das estações, a vida segue seu fluxo rumo a morte e o renascimento. Uma árvore perde suas folhas, vendo com passiva melancolia, seu verdor se esvair, pés insensíveis massacrando as folhas que serviram de provimento e abrigo, adornando-a com majestade.

Pensam os pés nos dias de chuva, no sol, no frio ou no calor? Pensam os pés nos frutos que aquelas folhas ajudaram a nutrir? Não, pisam na insensibilidade de pisar, apenas visando chegar aonde querem ir. Não existe passo baseado na meditação de passar, o simples deslocamento baseia-se no instinto de chegar, sem considerar tudo aquilo que deixa de existir debaixo dos seus pés.

Assim seguem os pés em seu deslocamento intermitente, enquanto a árvore contempla, com impotente inércia o farfalhar das folhas pisoteadas. O vento sopra os restos degradados, preenchendo a paisagem cinzenta de calçadas e asfalto com diferentes tons de verde decomposição. Bailam as folhas ao som do vento, a valsa do fim do espírito primaveril.

Pés pisoteando folhas.
Desenho por
Fausto Monpean

Este é o imortal ciclo da vida, em que as folhas que caem nutrem as árvores donde brotarão novas folhas, enquanto os pés e o vento desempenham seus papéis, ainda que inconscientes de que fazem parte de um ciclo muito maior.

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