A xícara no balcão

O vapor subia pela suas bordas lentamente, seu conteúdo escuro e convidativo contrastava-se com seu corpo pálido e lustroso. O mundo a sua volta agitava-se em meio a rotina matinal: pessoas, conversas, farelos, mãos, tudo mesclava-se e passava no mundo, que era o balcão. Ela no entanto não tinha um papel, cumprira seu papel, servira como tinha de servir, mas seu conteúdo pouco a pouco esfriava.

Alguém pediu café, alguém se esqueceu e foi embora sem sorver seu conteúdo, alguém a fizera sair de junto de suas iguais, alguém deu-lhe um propósito e a abandonou em meio a ele, tornando-a ao mesmo tempo cheia e vazia. Ninguém, no entanto, notou seu despropósito, ninguém a limpou e preparou-a para servir, vítima do excesso de carências de atenção, ela foi esquecida.

Xícara esquecida sobre o balcão da padaria, ao fundo pessoas no estabelecimento.
A xícara no balcão.
Ilustração por Fausto Monepan

Assim esfriou-se o café na xícara em meio ao balcão de uma padaria, em seu pálido brilho com excelência ela foi servida. Quão triste é servir e ser largado ao esquecimento, ninguém sabe porquê a pessoa que a pediu partiu sem conceder-lhe a concretização de seu propósito, apenas restou a xícara, abandonada até que dela alguém se lembrasse para limpar ou um cotovelo descuidado para a derrubar.

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