A flor na calçada

O vento gélido da manhã resfriou-lhe as bochechas e o nariz, com os olhos ainda semicerrados de sono, ele caminhou rumo ao ponto de ônibus. Uma faixa de pedestres, uma pequena praça deserta, composições de concreto cinzento numa manhã que ainda esmaecia com os raios tímidos de um sol amarelo.

Depois de cruzar as faixas brancas sobre o asfalto negro, momento no qual tinha sua atenção dividida entre os carros, que começavam a dar vida às artérias da cidade, e os fones de ouvido, que desenrolava entre os dedos, estacou ante uma anomalia, uma ruptura em meio ao cinza que inundava sua visão. Uma pequena flor amarela eclodira numa rachadura na calçada, rebelando-se contra o asfalto e concreto dominantes.

O choque contra a monotonia do horizonte urbano o fez parar,  tamanho que por alguns segundos ele suspendeu a própria respiração, reflexo da torpe sensação de que o tempo havia sido suspenso. Neste momento o vento de inverno, o sol irritante e até mesmo a indisposição sonolenta da manhã perderam seu poder. Ele agachou-se, apoiando-se sobre um dos joelhos e contemplou a pequena flor.

Flor na calçada em meio aos pedestres.
A flor na calçada.
Arte por Artemísia Porto

Soprada pelo vento ela balançava debilmente, frágil e indiferente a dureza do ambiente em que nascera. Com a ponta dos dedos ele colheu a flor, então ergueu-se, sua atenção ainda cativa pela calor rebelde da pequena planta. Como que tomado pela consciência da realidade voltou a caminhar.

Chegou ao ponto de ônibus quase sem tempo para pegar a condução diária, encontrando Camila, a colega de trabalho com quem estava flertando a dias. Ela o recebeu com um sorriso torto:

“Pensei que iria perder a hora”.

Ele entregou a pequena flor, o que arrancou da moça, que se segurava num dos suportes do ônibus, uma expressão de surpresa e um sorriso acanhado.

“Tropecei numa rachadura de calçada”; mentiu ele.

Assim morreu a pequena flor que se atreveu a desafiar o reino do concreto e asfalto. Ceifada pelo capricho de outro, que sem esforço algum, aproveitou-se da sua luta pela vida, por sua superação em meio a um ambiente hostil. Usada como simples ferramenta para os objetivos alheios, para morrer longe de onde escolheu, numa lixeira de escritório.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.