Stan Lee e o legado dos Heróis

Como o legado de Stan Lee por meio dos quadrinhos pode ir muito além da imaginação

No dia 12 de Novembro de 2018, as redes sociais foram inundadas por condolências e homenagens a Stanley Martin Lieber, popularmente conhecido como Stan Lee, um senhor de 95 anos, dono de um caricato rosto sorridente, cujos óculos escuros, sempre presentes, se tornaram marca registrada, imortalizou-se como um personagem da cultura mundial. Seu legado, no entanto, continuará a transformar a cultura e o pensamento humano por gerações, enraizados em coloridos quadros que ilustram a ação de heróis que cativam o imaginário de gerações.

O homem por trás do mito

Nova-iorquino, nascido em 28 de Dezembro de 1922, Stan Lee construiu sua carreira em coautoria de alguns dos mais emblemáticos super-heróis. Trabalhando temas como: preconceito, alcoolismo e críticas sociais, mesclando ideais heroicos com uma boa pitada de bom humor, ele teve grande participação na construção de um dos maiores universos fantásticos das histórias em quadrinhos.

Figura do Homem-aranha em primeiro plano, tendo ao fundo páginas de história em quadrinhos
Homem-Aranha, um dos personagens mais conhecidos das obras de Stan Lee.
Foto por Bruno Montine

A influência dos quadrinhos

Mas como crer que ilustrações em um determinado tipo de disposição podem influenciar a sociedade? O primeiro passo é conceituar o que são histórias em quadrinhos. As histórias em quadrinhos podem ser definidas como conjuntos de peças gráficas, organizadas em quadros, cuja cronologia e disposição de elementos textuais permite ao leitor compreender um enredo. Contudo, o designer e ilustrador Wiamon de Almeida Nascimento, acredita que pode-se assumir um conceito mais completo.


Wiamon: Mais do que quadros, diria que falamos de enquadramentos, tomadas de ângulos de câmera. A linguagem gráfica das HQ’s segue uma dramaticidade de cena. Essa dramaticidade pode utilizar da linguagem cinematográfica, desde efeitos de lente, perspectivas e planos de câmera. Penso que o apelo visual aumenta de acordo com o público-alvo.

No processo de produção cinematográfica, as cenas são estudadas e existem alguns passos que são fundamentais, destaca-se o storyboard onde as cenas poderão ter a sua dramaticidade, clima e paleta de cores predefinidos de qualquer processo de filmagem ou animação. É como se as mídias HQ e cinematográfica tivessem a mesma espinha dorsal.

Na HQ, todos signos sonoros são representados graficamente, cada qual com sua função prevista através de uma semântica universal. Ainda assim, por questões culturais e macrorregionais teremos distinção entre a representação dos signos sonoros em cada continente.

Wiamon de Almeida Nascimento

Percebe-se o poder de comunicação deste gênero, destacando, entretanto, que não é tão jovem, tendo sua primeira publicação no formato como conhecemos em 1895, fruto da criação do artista norte-americano Richard Outcault, segundo informações de Cíntia Cristina da Silva. O referenciado Stan Lee, editor de uma das maiores empresas do ramo, a Marvel Comics, tornou-se notório por trabalhar temas complexos em seus quadrinhos. Ao tratar de seu legado,  o ilustrador Aru Barros salienta:


Aru:  Stan Lee mudou a vida de muitas pessoas com suas criações, muita gente se emocionou com suas criações e seus personagens. Acho legal que os personagens dele passaram muitas mensagens positivas ou traziam algum tipo de reflexão sobre a vida, sociedade e fizeram as pessoas pensar em temas que muitas vezes nunca haviam pensado. Os X-Men, por exemplo, são personagens que lutam para salvar um mundo onde a maioria da sociedade os odeiam e discriminam, eles lutam contra o preconceito e a intolerância. Imagina o impacto que isso causou na vida de diversas pessoas!


Por conta de tanta coisa que criou, inspirou muita gente a criar também. Uma das razões pela qual virei ilustrador é que eu gostaria de trabalhar com histórias em quadrinhos. O mundo deve muito ao Stan Lee, talvez seu maior legado seja o poder das criações dele de mudar tantas vidas, de tantas maneiras diferentes em várias áreas.

Aru Barros

Portanto, relembrando a máxima de Oscar Wilde:  “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”, é interessante refletir sobre a real influência das criações de Stan Lee, trazendo não só os personagens da Marvel Comics, mas todo o universo dos quadrinhos, e questionando: quanto podem os heróis e enredos dos quadrinhos afetar a vida real?

Óculos disposto sobre várias revistas em quadrinhos.
Percepção em meio as HQs.
Foto por Bruno Montine

Os heróis e a identidade

Procurando dar mais profundidade a esta reflexão, o Locomotiva procurou o Psicólogo Tadeu Dantas para tratar deste tema.

Locomotiva: Os super-heróis têm um papel na construção da identidade dos indivíduos?


Tadeu Dantas: Podemos analisar essa questão sob diversas óticas. Para Jung, os mitos são manifestações arquetípicas da psiquê humana. Assim, um herói representa determinados conteúdos ancestrais que permeiam todas as culturas.

Super-heróis são os herdeiros modernos dos antigos mitos e deuses, adaptados aos tempos contemporâneos. É interessante o caso do Superman, mais recentemente nesse filme de 2013, em que existem diversas referências bíblicas à figura de Clark Kent. Isso quando o super-herói não é um Deus Nórdico mesmo, como no caso do Thor. Trazendo novamente o Jung para a conversa, as figuras dos heróis representam características, conflitos e dilemas que todos seres humanos, em algum momento, passam em suas vidas.

Locomotiva: Por que a ideia de ser um super-herói atiça tanto o imaginário, em especial na infância?


Tadeu Dantas: Novamente invoco alguns autores para elucidar a questão, no caso, Joseph Campbell contribui com a “Jornada do Herói”. Esta se inicia com um cidadão comum que recebe um chamado a um grande desafio e toma a decisão de seguir por este caminho desconhecido que lhe é revelado. Depois de batalhas e provações, ele retorna para casa renovado. Diversos mitos e super-heróis se encaixam nesse esquema, que de certa forma reflete a jornada ao Self Jungiano. Uma jornada tortuosa e talvez impossível de ser concluída rumo à totalidade.

A infância é um período em especial, muito vulnerável do desenvolvimento humano. Sabemos muito bem como pequenas coisas se tornam gigantescos monstros na mente infantil, além do mundo ser um lugar amplo e cheio de aventuras, repleto de novidades. Aí se manifestam os primeiros passos da “Jornada do Herói”, o início da vida.

Locomotiva: A popularidade dos anti-heróis é reflexo de uma sociedade que já não se identifica com heróis de caráter perfeito?


Tadeu Dantas: Ainda sob essa perspectiva Junguiana, a identificação que temos com os herói e figuras mitológicas, acontece justamente pelos conteúdos próprios da psiquê humana.
Vejamos um exemplo de um arquétipo, o trickster, que se personifica tanto como o Loki da Marvel como o Coringa da DC, posso estar fugindo do assunto aqui, mas se trata de um personagem, de uma figura popular, mas que de alguma forma carrega os valores de heroísmo clássico, presentes em personagens mais “nobres”.


Quanto ao anti-herói clássico, poderíamos assim dizer que é uma figura que se aproxima de sua sombra, seus conteúdos que não são os que mais gostaríamos de expor aos outros, claro que isso de maneira inconsciente. Todos temos uma sombra, aquilo que não é necessariamente ruim, mas que por uma série de razões conscientes ou não, deixamos de expor. O anti-herói é essa figura que transita entre esses nossos “mundos internos”.

A percepção de um herói necessário

Fernanda N Silva, colunista do Locomotiva, conclui que o principal legado de Stan Lee está na percepção visionária de que um herói é necessário para nossa realidade:


Fernanda N Silva: Atualmente, certos valores, como abnegação, amizade e o comprometimento com algum ideal, não geram tanta identificação nas pessoas, a grande popularidade dos anti-heróis é um reflexo disso. Mas acredito também que isso é uma coisa boa, veja bem, não tem sentido criar um personagem “perfeito”, o leitor não é perfeito e o criador muito menos. Há muito tempo, a sociedade não se identifica mais com alguém que tem todos esses valores, o que não significa que eles não devam ser ensinados.

Veja o exemplo de Macunaíma,  do escritor modernista Mário de Andrade, lançado em 1928 e que causou comoção, mas hoje ninguém vê o personagem como algo diferente da realidade. Por outro lado, eu acho que a sociedade não se identifica com o Capitão América, mas também não se identifica plenamente com o Loki, ela procura se identificar com o meio termo, algo mais próximo de uma pessoa real.

O homem-aranha provavelmente é o melhor exemplo, é um super-herói imperfeito que não consegue conciliar sua vida de vigilante com a pessoal, tem dificuldades em pagar o aluguel, que vive sofrendo com conflitos entre o desejo e o poder, perdendo inclusive a namorada no processo. É um prelúdio de um herói com o qual a sociedade se identificaria, talvez como uma imagem do homem moderno. Ele luta por um ideal, mas a realidade bate a porta a todo momento. A mesma realidade que a criança que começará a ler hoje terá e que o adulto de 40 anos, que lê desde pequeno, também enfrenta.

Logo, é clara a percepção de que  Stan Lee idealizou um tipo de herói que nos dá a inspiração para que cada um busque também ser um herói, como Peter Parker. Talvez não tão perfeitos quanto Capitão América, nem tão caóticos quanto o Deadpool, mas trabalhadores que sempre tem que fazer um pouco a mais para construir um mundo melhor, sem esquecer dos nossos alugueis e a nossa geladeira. Este ideal que se sintetiza na célebre frase de Tio Ben: “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”

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