A mentalidade do abandono

A mentalidade do abandono é o reflexo de uma cultura que oscila entre o excesso de cuidados e a completa omissão com os animais domésticos

A relação entre humanos e as diversas espécies de animais data de milênios, o que é, sobretudo, fruto natural da coabitação dos diversos biomas que compõem o planeta Terra. Este relacionamento por vezes se caracteriza pelo intuito humano na utilização dos animais para produção de derivados, como leite, lã e carne. Em outros casos, essa relação assume um aspecto de companheirismo, como se dá com cães e gatos.

Mais que animais, membros da família

A domesticação trouxe os animais para dentro dos lares, fazendo deles, muitas vezes, verdadeiros membros das famílias. A realidade brasileira é uma amostra disto, demonstrada pelos números da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação(ABINPET) de 2017, que demonstram que apesar da crise econômica, este setor teve um crescimento de mais de sete por cento, alcançando o montante de vinte bilhões de reais em vendas. Estes dados fazem do mercado brasileiro o terceiro maior do mundo em vendas, e se considerados os números oficiais da pesquisa quinquenal do IBGE, o segundo maior mercado em população de animais de estimação, com mais de cento e trinta e dois milhões de animais. Logo, percebe-se que os “pets” fazem parte da vida e sociedade brasileira, como exemplificado na pesquisa citada, além disso, compõe ativa da economia de inúmeras famílias, que procuram dar a eles o melhor conforto.

A Face do Abandono

Contudo,esta história não é apenas sobre carinho e companheirismo, a outra face desta história é o abandono. A Organização Mundial de Veterinária estima, segundo levantamento de 2017, que existam hoje no mundo mais de duzentos milhões de cães em estado de abandono. Isso dá uma perspectiva das dimensões do abandono, suas consequências são, contudo, muito mais extensas.

Cão abandonado
Cão em estado de abandono. Foto: Bruno Montine

Dezenas de milhões de pessoas sofrem ataques destes animais todos os anos, ainda segundo dados da Organização Mundial de Veterinária, destas, dezenas de milhares acabam por contrair raiva, o que em países com contexto econômico precário, é uma sentença de morte. Num contexto global os tratamentos globais para remediar essas ocorrências acaba por custar mais de dois bilhões de dólares.

Do ponto de vista animal são escassas as estatísticas oficiais do impacto do abandono. Desnutrição, mutilação, envenenamento e infecção por inúmeros tipos de doenças estão entre os males que flagelam os abandonados. Não há contagem precisa dos mortos, vítimas do descaso e do abandono, forçados a uma volta abrupta aos modos de sobrevivência de seus antepassados. Tendo seus instintos obscurecidos por incontáveis gerações que deles não precisaram.

A Razão da Incoerência

Mas o que causa uma dicotomia que se por um lado temos um mercado crescente de cuidados com animais, e por outro um cenário de abandono, morte e indiferença com animais? Por mais que a contradição possa ser considera parte da natureza humana, é preciso compreender o cerne do mal que cria esta mentalidade de abandono, que leva o sofrimento a milhões de seres vivos.

O Locomotiva entrevistou Tiago Vinicius Carneiro Marques, psicólogo, especialista em saúde pública com atuação no Sistema Único de Saúde.

Locomotiva: Qual você acredita ser a raiz da mentalidade de abandono que nossa sociedade tem com relação aos animais?
Tiago: Animais são como filhos, eles fazem sujeira, são carentes, bagunçam, se irritam, a diferença é que não tem mecanismo de proteção como as crianças. Mesmo assim eles tem sentimentos e demandam tempo, quando se adota um cachorro é preciso ter consciência de que se está assumindo um relacionamento de pelo menos 15 anos com aquele ser. As pessoas pensam que por serem diferentes, quadrúpedes, nós somos superiores, então tratam eles como simples posse, objeto, que quando cansa, pode ser abandonado. Assim desconsideram seus sentimentos e o vínculo que eles criam conosco.

Locomotiva: Você atribui a cultura do abandono de animais a uma objetificação dos animais? Uma forma de visão segundo a qual ele é uma propriedade ou na melhor das hipóteses uma forma de vida inferior?
Tiago: Sim. Por que os laços sanguíneos são muito fortes. Temos a tendência de proteger a espécie. Fazemos testes em animais, usamos eles de alimento, usamos eles para tudo. Se for com a mesma espécie isso é uma proibição interna muito forte.

Locomotiva: Nesta questão do afeto, você acredita que há uma relação entre a objetificação, que você citou acima, com uma dificuldade das pessoas de estabelecer vínculos afetivos com os animais?
Tiago: Talvez de alguns. As pessoas não engordam os porcos e as galinhas pensando no natal? Fica uma coisa de que os animais estão conosco enquanto servem, qualquer coisa a gente mata ou abandona, após cumprirem seu propósito. Até com os humanos fazemos isso não é mesmo? Vide términos, divórcios e casuais.

Pode-se concluir que a raiz da mentalidade de abandono, está na objetificação dos animais, pela qual são considerados mera propriedade, sem sentimentos, sem reais necessidades e sobretudo sem direitos. A posição privilegiada em que nos colocamos, enquanto seres superiores, nos escusa a consciência de qualquer ato tomado contra eles e acima disso, qualquer omissão. Pois como objeto seu sofrimento não é para nós real, tangível, estão, nesta perspectiva, longe do alcance da nossa empatia. Assim a sociedade oscila numa perigosa balança, entre o excesso de cuidados ou a total indiferença, com estes seres, que por nós foram transformados, mas que em nós também conheceram a omissão do abandono.

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