Próxima Estação: Diferenças

Um cigarro, a garota errada e um mendigo.

Finalmente, sexta-feira, para muitas pessoas isso era muito bom, para Augusto era apenas bom,afinal trabalhar na equipe de segurança significava poder ser convocado, em caso de emergência, no final de semana.

Salvou todos os arquivos que não haviam sido salvos automaticamente pelo sistema, fechou todos os programas abertos e, por fim, desligou o computador. Ajeitou alguma papelada que havia sido deixada em cima de sua mesa e guardou sua caneca térmica, já vazia após o longo expediente. “Ao menos amanhã é sábado”, foi o que pensou.

O lugar já estava praticamente todo vazio, exceto por alguns funcionários da limpeza passando pelos corredores, com baldes, rodos e panos, tudo transportado por  carrinhos amarelos.

Quando chegou ao saguão do edifício, viu três colegas de trabalho, do setor administrativo. Foi interceptado por eles.

– E aí cara.
– E aí.
– Cigarro?

Augusto respirou fundo e se lembrou do dia passado, “Sempre acabo evitando comunicação, sempre perco essas oportunidades”.

-Vou aceitar um.

Você não é de conversar muito, não é mesmo, Augusto? Perguntou um dos rapazes de aspecto simpático. Este segurava um grande copo de café do StarBucks e parecia estar um pouco cansado.

-Eu também tenho dificuldade.

Pouca conversa se seguiu depois disso, os quatro se entreolharam e Augusto se despediu, seguindo seu caminho de sempre. Enquanto tentava conversar nem se deu conta de que não acendeu o cigarro, na realidade ele estava com um maço quase cheio de cigarros. Caminhando e observando a cidade, percebeu que já havia anoitecido.

Acendeu o cigarro, as luzes dos grandes prédios na larga avenida mexiam com suas memórias, lembrou-se mais uma vez do dia passado. Em especial o suéter azul.

Algo então capturou a atenção de Augusto, ele viu a moça de suéter azul, foi como se tudo a sua volta se apagasse e ela se tornasse o único ponto iluminado, tinha que ser ela.

Saiu em disparada, coisa que não era de seu feitio, mas foi uma atitude  impulsiva. Contudo, quando chegou perto, não percebeu que não estava diminuindo o passo, acabando por assustar a moça que, ao virar-se e chamá-lo de louco, permitiu a ele perceber o engano, não era ela, nem o suéter.

Desculpou-se e saiu rapidamente dali, voltando ao trajeto rumo a estação de trem. Por acaso, no caminho, notou um velho mendigo, sentado próximo à porta de um banco, estava tão acostumado com moradores de rua pedindo cigarros que logo tirou um e foi levar ao homem, na esperança de fazer algo bom.

Surpreendeu-se quando chegou próximo ao homem com o cigarro e este lhe lançou um sorriso largo.

-Obrigado, meu filho, mas eu não fumo.

Sem graça, Augusto acenou com a cabeça e seguiu seu caminho.

Já em sua casa, na sacada, Augusto fumava um cigarro, olhando para a cidade, lembrou da falsa garota com o suéter azul, lembrou do mendigo.Ao horizonte, uma avenida cheia de carros trafegando, dando a sensação de infinitude. Augusto deu mais um trago, soltou a fumaça e disse para si mesmo:

-As pessoas são todas diferentes.

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