Feira Literária de Cruzeiro – FLIC 2018

Sobre a importância de se cultivar o interesse pela leitura e a valorização da cultura regional

Nessas idas e vindas de notórios fatos divulgados no início de setembro sobre o incêndio que destruiu o Museu Nacional, queimando um amplo acervo coletado ao longo de 200 anos de existência, o Locomotiva News traz à baila oportuna cobertura de um evento ocorrido dentro de um museu, demonstrando toda a riqueza deste tipo de ambiente, bem como possíveis formas de revitalização de uma área até então não enaltecida. Trata-se da segunda edição da Feira Literária de Cruzeiro (FLIC), ocorrida nos dias 05 e 06 de outubro, no Museu Histórico e Pedagógico Major Novaes, localizado na cidade de Cruzeiro, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo.

Toda a programação contou com um farto repertório musical ao fundo, interpretado pela Escola de Música da Prefeitura Municipal, sob a direção de Isabel Regina Perroni, com músicas para todos os gostos, em ritmos ecléticos. Perroni destacou a constância dos eventos musicais no museu, inclusive com a participação de outras bandas, como o Coral Una Voz, da professora Rosa Amélia, o Coral do professor Fábio, e o Coral das crianças da Escola Padre Francisco, idealizado pelo professor Vinícius. Realçou, também, o convite público de inauguração do Museu, que ocorrerá em dezembro deste ano, em que, após as reformas do prédio, será aberto o piso superior para visitação. Fique atento às novas atrações!

Um pouco sobre a história do Museu Major Novaes

As histórias do referido Museu e de Cruzeiro se confundem, já que a figura do Major Manoel de Freitas Novaes, homem que mantinha relação de proximidade e de amizade com Dom Pedro II, é associada à fundação da cidade, pois ao redor da então chamada “Fazenda Boa Vista” nascia o povoado que se crescia gradualmente. A importância desse Museu é tamanha, o que justifica o tombamento histórico do prédio pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), formalizado pelo Decreto Estadual  nº 13.227, de 24 de setembro de 1969.

Atualmente, a área em que abriga o Museu Major Novaes vem sendo revitalizada com as propostas do município em transformar Cruzeiro em pólo turístico, que incluem as reformas no intuito de conservação do patrimônio e os eventos implementados em seu interior. Dentre esses eventos, destaca-se a Feira Literária (FLIC), organizada pela atual Diretora. Confira as entrevistas a seguir.

Todo evento que promova a leitura é um evento significativo

O Locomotiva News entrevistou Cláudia Isabel Ribeiro Santos, diretora do Museu Major Novaes, Doutoranda em História e professora de História nas redes pública e privada de ensino, cujo objeto de pesquisa é a cidade de Cruzeiro.

Locomotiva News – Como você vê o Museu Major Novaes enquanto instituição?

Cláudia – As instituições museológicas trabalham com um objeto que é a história. No espaço museal, conseguimos trazer concretude para a história, damos vozes aos sujeitos esquecidos, damos vozes às minorias, enfim, que a história sempre acaba ocultando. A minha proposta é essa: trazer para esse espaço museal esses outros sujeitos esquecidos da história dita oficial.

Aqui, temos um acervo documental belíssimo. O exemplo disso é nessa nova proposta que construímos. Esse prédio se chama “Museu Major Novaes”, mas esse museu não era do Major Novaes. Ele herdou esse museu de uma pessoa chamada Fortunata. E a história oficial não conhece quem foi Dona Fortunata, não temos nem fotografia dela. Foi ela quem administrou a fazenda durante 11 anos, mesmo sendo analfabeta. O Major Novaes foi o terceiro marido dela. Ela era 18 anos mais velha que o Major Novaes e ela acumulou uma herança grande por se tornar viúva duas vezes. A Dona Tita, que também é conhecida na história, é neta do Major Novaes e foi a última descendente dos Novaes a residir no casarão.

Locomotiva News – De que modo você acredita na contribuição da FLIC para a cidade de Cruzeiro e para as cidades vizinhas?

Cláudia – Todo evento que promova a leitura é um evento significativo. A FLIC, por acontecer dentro de um espaço de museu, traz um novo significado para esse espaço, pois a gente acha que o museu é só história do passado, só coisa velha, e não. A proposta é construir novas memórias dentro deste espaço museal. A FLIC é essa proposta, de construir outras memórias para esse espaço.

Locomotiva News – Como surgiu a ideia de promover a FLIC?

Cláudia – A Feira Literária de Cruzeiro é um sonho de Cláudia, enquanto representante do Museu Major Novaes, e Eduardo Werneck, enquanto Diretor da Academia Cruzeirense de Letras e Artes. É um sonho duplo. Devido a esse sonho, o ano passado nós falamos assim “vamos tirar do papel” e fizemos a primeira FLIC. Ela não tinha toda essa infraestrutura. Ganhou essa infraestrutura esse ano, graças ao apoio da Prefeitura Municipal, mas começamos. Então, a proposta é que a partir de cada ano o evento cresça mais, tome mais corpo e se desenvolva.

Locomotiva News – Em relação à primeira edição da FLIC, ocorrida o ano passado, 2017, quais as novidades deste ano?

Cláudia – A praça de alimentação, várias outras editoras que convidamos, revendedoras de livros. Então, assim, tem mais diversidade no que tange à procura de livros. A outra novidade é o espaço das crianças, que é a “Fliquinha”, com intensa atividade, com oficinas, contações de histórias, tudo voltado para o público infantil. Além disso, temos as peças de teatro de um projeto que é desenvolvido dentro do Museu pela atriz Raquel Perroni.

Locomotiva News – Como foram as contribuições da Prefeitura Municipal e dos patrocinadores?

Cláudia – Só tenho que agradecer o apoio dado pela Prefeitura.

Temos 5 patrocinadores: Colégio Orbe; Colégio Anglo Cruzeiro; a Livraria Do Vale; a Livraria SESI; e o SESI São Paulo.

Locomotiva News – Sobre as atividades da segunda edição da FLIC, você tem alguma a destacar?

Cláudia – Acredito que seja a própria oficina para as crianças. Tenho visto as crianças saindo muito felizes das oficinas da segunda sala, promovida pelo Colégio Orbe.

A “Fliquinha” contou com duas salas voltadas às oficinas para o público infantil. Essa segunda sala, que comentei, e a primeira sala, em que a programação se deu com o patrocínio da Livraria do Vale e consistiu na leitura de contos de suspense e de terror produzidos por escritores locais do Vale do Paraíba sobre histórias reais da região, são contos de terror do tipo “Maria Augusta”, que vira a loira do banheiro.

Não se pode negar as questões históricas de um passado escravista, mas a proposta é buscar um princípio de alteridade

Sobre as Oficinas desenvolvidas pelo Colégio Orbe, conversamos com o responsável, o Coordenador e professor de Artes Wallison César Mendes, cuja trajetória profissional brotada no teatro amador trouxe mudanças em sua concepção de educação por meio da arte cênica, porque, de acordo com o professor, “o prazer de se fazer o teatro é solitário, embora seja uma arte em grupo. E já na arte-educação, esse prazer é concretizado em outras pessoas e isso é muito legal”. Esse prazer foi colocado em prática nas atividades da Fliquinha. Mendes conta alguns detalhes sobre o Projeto.

Locomotiva News – Como foi organizada a Fliquinha?

Wallison – A ideia da Fliquinha começa a partir de uma amizade de longos anos que tenho com a Cláudia, Diretora do Museu, e, o ano passado, quando ela organizou a FLIC, eu sugeri que seria interessante se tivesse um espaço para crianças. Dessa ideia, ela me intimou (risos) a buscar a organização desse espaço. Como sozinho a gente não faz nada, eu conversei com o Colégio onde trabalho atualmente e consegui apoio. Nós fizemos uma organização nossa sobre a Fliquinha. Dentro disso, entendemos que um tema relevante seria trabalhar as questões da cultura africana numa perspectiva positiva, até porque seria extremamente simbólico trabalhar esse assunto dentro do espaço “Casa Grande”, dentro de um museu caracterizado como um espaço de repressão, uma casa onde sabemos que existiam escravos. Então, é super simbólico trazer essa perspectiva do africano dentro da sua cultura, e não com o discurso apenas desse africano escravizado, mas sim dos seus valores culturais e étnicos. Não se pode negar as questões históricas de um passado escravista, mas a proposta é buscar um princípio de alteridade, de entender os valores da cultura do outro e, assim, valorizar a identidade afro-brasileira, e não apenas de fazer um recorte histórico de um período extremamente cruel.

Locomotiva News – Conte um pouco sobre a programação da Fliquinha.

Wallison – Temos duas salas. A que nós organizamos  traz 3 histórias que abordam a temática afro-brasileira, e outra organizada por outro grupo, que fala sobre histórias de terror e de assombração.

No espaço em que montamos, existe a contação de história e depois uma oficina plástica relacionada a essa história, em que as crianças produzem sua própria releitura, podendo levar o que produziram para casa como sendo um artefato de memória da atividade. As histórias selecionadas para os trabalhos e as atividades relacionadas foram as seguintes:

Das 11h às 11h50 e das 14h às 14h50: “Já já – A história de uma árvore apressada”, de Paulo Rea, com a oficina criativa “argila e arte”.

Das 12h às 12h50 e das 15h às 15h50: “Menina bonita do laço de fita”, de Ana Maria Machado, com a oficina criativa “colagens”.

Das 13h às 13h50 e das 16h às 16h50: “ Bruna e a galinha d’angola”, de Gercilga de Almeida, com a oficina criativa “pintura com dedos”.

As pessoas, em especial os jovens, precisam de referências para procurar novas visões*

O Locomotiva News ouviu a opinião de alguns dos participantes sobre as experiências com a leitura e com eventos como a FLIC.

“Eventos como a Flic, que tem como objetivo tentar fomentar uma cultura de leitura, são fundamentais, pois com o ambiente que vivemos no nosso país, tão cheio de intolerância, a cultura e a educação são os únicos caminhos para ter um país melhor. A leitura ajuda a formar pessoas mais conscientes e cidadãos mais críticos quanto à sociedade.”

Mayara Soares, 31 anos, estudante universitária e funcionária pública.

“A leitura me auxilia muito nos estudos para o vestibular, na interpretação das questões e na minha produção de texto. Meus pais são professores, minha casa é um ambiente cheio de livros, então sempre fui muito estimulada a ler desde muito cedo. Acho que a leitura pode transformar muita coisa, além do conhecimento, principalmente a paciência! Quando as pessoas veem textos nas mídias sociais, elas logo correm, nem tentam ler, isso só mostra como as pessoas são impacientes. A leitura, inclusive, poderia fazer as pessoas ser mais pacientes e tolerantes nos seus relacionamentos interpessoais.”

Taís Castro, 22 anos, estudante.

Destaca-se o testemunho da professora Rita Gabriel, 53 anos, que em tom emocionado descreve sua experiência com a leitura e enfatiza a importância de iniciativas como a FLIC.

“Meu primeiro momento com a leitura foi no sexto ano, quando a professora pediu para eu ler ‘Vidas Secas’. A partir disso, eu me encantei com a leitura e me dediquei, com muita dificuldade, já que na minha formação de base eu tive muita dificuldade por sofrer com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), problema que só compreendi na vida adulta. Eu até me emociono em dizer, mas a literatura me salvou, pois ela me deu uma motivação para me empenhar, e isso foi tão impactante em minha vida que eu me tornei professora de português e hoje tento trazer isso para jovens. Em relação a eventos como a FLIC, a importância se dá, principalmente, pelo referencial. As pessoas, em especial os jovens, precisam de referências para procurar novas visões, novas leituras do mundo. Eventos como este podem mostrar às pessoas novos acessos à cultura, reunindo pessoas num nível mais elevado de cultura, tirando elas da mesmice e dos meios de entretenimento massivos. A minha própria história com a leitura é um exemplo de como ela pode ser transformadora, então considero esse tipo de iniciativa fundamental.”

Rita Gabriel, 53 anos, professora

*Suporte na cobertura: Jonatas F. Passos e Wesley Moraes

**Fotos por Bruno Montine

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