Ilustradores no universo das encomendas virtuais

A tecnologia proporcionou que os ilustradores encontrassem na internet um novo mercado de consumidores

A arte de representar a realidade, pensamentos, sonhos e aspirações com cores e contornos está presente em toda a história humana. Das pinturas rupestres aos quadros renascentistas, as artes visuais, enriquecidas pelos recursos desenvolvidos desde pedras riscadas nas paredes das cavernas, passando pelo grafite até as mesas digitalizadoras, o desenho e a pintura registram a passagem da humanidade sobre o planeta Terra, antecedendo a escrita e outras iniciativas iconográficas de registros.

Mãos de um ilustrador trabalhando num desenho
Ilustrador desenhando, foto por Bruno Montine, modelo: Bruno Faria

A escrita é tão jovem, segundo o pesquisador  Adovaldo Fernandes Sampaio, em sua obra “Letras e Memória. Uma Breve História da Escrita”, os primeiros usos da sua forma cuneiforme datam de aproximadamente 3.000 anos A.C., tendo sua gênese na Mesopotâmia. Por outro lado, as pinturas rupestres possuem registros que ultrapassam os 40.000 A.C., tendo sido encontradas na Europa, África e América do Sul. Logo a expressão humana pela arte visual, registrando o cotidiano, sentimentos e outras camadas da existência humana, é muito mais antiga. Talvez por isso, ao admirarmos uma obra de arte,  somos tocados de maneira muito mais instantânea do que um escrito, intrincado processo da leitura, dando sentido ao dito popular: “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

O que muitas vezes esquecemos, é que cada obra é acima de tudo a representação da perspectiva de um ser humano, sua própria leitura do mundo, dos acontecimentos, da rotina ou de um evento específico. Ao nos lembrarmos disso, também nos recordamos que na maioria das vezes, como por exemplo a Capela Sistina, são encomendas e tais artistas, profissionais contratados com um objetivo. E ainda que isto não desmereça a interpretação e assinatura de cada artista, esta lembrança nos traz a realidade de que muitas vezes esta percepção está a serviço de outros.

A internet e o apogeu das mídias sociais criou um novo mercado, composto por indivíduos comuns com ambições modestas, que estão longe, na maioria das vezes, de publicações com tiragens na escala dos milhares de publicações. Estes novos clientes, são por vezes pessoas comuns, dotadas do desejo de ter uma obra sua, exclusiva, a materialização de uma idealização.

Neste mercado podemos contar, por exemplo, bandas que procuram ter seu espaço, tendo artes marcantes em seus álbuns e camisetas, grupos de RPG, que desejam imortalizar personagens e aventuras, escritores em busca de inserção no mercado editorial, além de maior imersão do público, buscando capas e ilustrações chamativas para suas obras, entre outras infinidades de novos consumidores.

Esta nova demanda fez surgir um novo tipo de profissional, mais acessível a estas demandas de mercado. Utilizando-se de mídias como DeviantArt, que cravaram seu espaço no mundo virtual, servindo como portfólio para profissionais que, percebendo este nicho, buscam atrair e fidelizar essa nova gama de clientes.

Para dar uma perspectiva mais clara deste mercado, o Locomotiva entrevistou os ilustradores André Guerra e André Martuscelli Do Amaral. Eles contaram um pouco sobre sua história com a ilustração e falaram sobre os principais desafios ao trabalhar-se com encomendar virtuais.

Equilibrar o preço é o meu maior desafio

André Guerra tem 29 anos,é  ilustrador profissional em uma emissora de TV, mas trabalha como freelancer desde o período da faculdade em design.

Jonatas – A quanto tempo você faz ilustrações e o que te levou a começar: ambição profissional ou gosto pelo desenho?

André Guerra : Desde criança sempre tive gosto por desenhar e o mais legal é que sempre tive o incentivo dos meus pais. A visão profissional, no entanto, só começou no último ano da faculdade de design, quando utilizei meu TCC para a concepção de um projeto gráfico para o encarte do CD da banda de alguns amigos. Foi nessa época que aprendi a utilizar a ilustração como ferramenta de comunicação visual, mas nunca por ambição, sempre pela paixão por ilustrar ideias e conceitos.

Jonatas – Qual seria hoje o principal meio (site, rede social etc) pelo qual você divulga seu portfólio, e serve como fonte de captação para novos clientes? Qual o motivo de escolher este meio?

André Guerra : Inicialmente utilizei o Facebook, postando trabalhos mais voltados para a área musical, como ilustrações para encartes de CDs, cartazes de festivais e demais ilustrações, além de lyric vídeos que produzia para as bandas, utilizando a marca “Parabellum” como assinatura para meus trabalhos ao invés de meu próprio nome. Posteriormente aderi também ao Instagram, onde consegui alcançar mais seguidores. Por conta dos lyric vídeos, meu trabalho também alcançou mais alguns admiradores pelo Youtube. Escolhi essas plataformas por sua popularidade e visibilidade que elas proporcionam.

Jonatas – Qual é a maior dificuldade que você enfrenta no que diz respeito a encomendas online?

André Guerra: Muitas vezes a maior dificuldade é a comunicação, mas há também uma questão de confiança para com o cliente. Infelizmente precisei levar alguns calotes até aprender a trabalhar com contrato, por exemplo. Prazo e alterações também são detalhes complicados às vezes, já que muitos clientes não respeitam bem a complexidade de alguns trabalhos.

Jonatas – Você já teve dificuldades com clientes que não concordavam com você com relação ao valor do trabalho? Se sim, ao que você atribuiria a dificuldade destas pessoas em compreender o valor de um trabalho de ilustração?

André Guerra: Sim, mais do que eu gostaria. Infelizmente alguns clientes não compreendem o processo de criação e concepção, pedem coisas incríveis em condições absurdas de prazo e também não consideram que assim como todo profissional, o ilustrador tem custos operacionais, de equipamentos, energia, etc.

Jonatas –  Você acredita que exista depreciação de valores no mercado das ilustrações por alguns profissionais “prostituírem” o mercado com valores muito baixos, com medo de perder clientes?

André Guerra: Infelizmente existem profissionais que praticam preços muito mais baixos e muitos inclusive são ótimos ilustradores, mas talvez acreditem que quantidade seja melhor do que qualidade. Porém não acredito que isso venha a ser um obstáculo muito grande para um bom profissional que se valoriza. Tendo um bom portfólio e sendo capaz de apresentar bons resultados, é possível sim se posicionar num patamar que considere mais justo, claro que sempre com bom senso e sabendo avaliar também as condições do cliente.

Jonatas –  De que forma você entende que a arte, no caso a ilustração, reflete o pensamento e a cultura da sociedade?

André Guerra: Sempre tive para mim a arte como subjetiva, cada artista tem seus pensamentos singulares, mas a interpretação é múltipla aos olhos do espectador. É preciso sensibilidade na interpretação da arte, sem isso é impossível refletir conceitos e significados. Portanto, para mim, um indivíduo incapaz de apreciar e interpretar a arte, de qualquer forma que seja, é desprovido de sensibilidade e racionalidade humana. Sobretudo, como ferramenta, a arte é para o artista a sua máxima expressão, é liberdade. Pode expressar emoções, protestos e mensagens diretamente ligadas à períodos ou fenômenos sociais, por exemplo. Essa mensagem em forma de arte transcende o tempo, podendo deixar para sempre conceitos, filosofias e aprendizado para a sociedade.

Entender o que o cliente precisa e transpassar da mente dele para a arte

André Martuscelli Do Amaral, 25 anos, é formado em Administração, mas dedica-se exclusivamente a ilustração, atuando como freelancer desde 2013, além de trabalhos esporádicos com editoras e suas próprias séries de quadrinhos. É uma figura reconhecida em eventos culturais no Vale do Paraíba e Sul de Minas Gerais, onde expõe alguns de seus trabalhos.

Jonatas – Ao ilustrar para outras pessoas qual sua maior dificuldade?

André Martuscelli Do Amaral: Entender o que o cliente precisa e transpassar da mente dele para a arte. Sempre peço o maior número de detalhes possível sobre o que o cliente quer, mas na maioria das vezes eles deixam por minha conta alguns detalhes importantes, e na arte as possibilidades são infinitas, então eu acho que essa é a parte mais difícil.

Jonatas – Você acredita que seus clientes compreendem o valor das ilustrações? Já enfrentou problemas com pessoas que quiseram não pagar aquilo que você considerava justo pelo seu trabalho?

André Martuscelli Do Amaral: Eu cobro muito barato e por isso não me lembro de alguém que não quisesse pagar pela obra, exceto pessoas que vinham achando que era de graça… Mas acho difícil para quem não é artista entender todo o valor de uma obra, a dificuldade em cada traço, o tempo que levamos para terminar uma obra e o tempo que levamos para alcançar a atual técnica, se hoje  faço um trabalho em 20 minutos ou 5 horas é porque fiquei minha vida toda treinando para fazer nesse tempo e eu acho que essa é a parte mais difícil do cliente entender. Geralmente tratam como um dom e eu acho que essas coisas fazem as pessoas desvalorizarem, pois acreditam que é algo que recebi de graça, que não teve um custo. Outra coisa é que as pessoas estão acostumadas com trabalhos quase 100% físicos e quando encontram um trabalho quase 100%  mental elas não entendem o porquê do preço.

Jonatas – Você encara que a falta de valorização pode ser efeito de profissionais que “prostituem o mercado”, condicionando os clientes a pagar preços muito baixos, com medo de perder encomendas?

André Martuscelli Do Amaral:  Bom, eu seria um desses, minha insegurança faz eu cobrar muito barato, mas é a desvalorização que me faz ter medo de perder a encomenda, não o oposto. O que acontece é a falta de cultura em nosso país. Por exemplo, mesmo que todos os artistas cobrassem caro, haveria aquele sobrinho iniciante que sabe copiar muito bem, o cliente terá o trabalho de graça, mas o cliente na maioria das vezes não possui conhecimento artístico nenhum, pois nunca tivemos conceitos básicos de arte nas escolas ou na mídia como deveríamos, então o cliente adquire um trabalho ruim sem saber, ele pode até gostar, mas quem entende um pouco mais do assunto verá os defeitos. Então, se nosso país tivesse mais investimento em cultura, todo mundo saberia reconhecer a diferença de uma arte para outra e o valor que cada uma teria.
Claro que os artistas também precisam valorizar seus trabalhos, mas é um processo muito difícil aqui porque querendo ou não é um trabalho muito inseguro e concorrido, equilibrar o preço é o meu maior desafio na profissão.

Jonatas – Você se especializou em ilustrações de fantasia, correto? Por que fez essa escolha?

André Martuscelli Do Amaral: Eu adoraria fazer outros temas, acredito que o tema não é importante, todos os temas podem ter elementos bons, mas eu acabei fazendo mais sobre fantasia por ter uma saída maior no mercado e por eu consumir muito deste mesmo material, então estou mais imerso neste tema e isso me facilita muito, então consequentemente é o tema que eu mais me sinto confortável e seguro em trabalhar com.

Jonatas – Como você definiria o papel das histórias de fantasia no cotidiano humano?

André Martuscelli Do Amaral: Acho que cada um encontrará uma resposta diferente sobre o tema. Eu vejo como arte, é algo que toca o nosso lado mais sentimental, como um poema, como uma música. A fantasia para mim é algo que foge do racional e nos toca no emocional e eu acho isso importante, o entretenimento é importante. Acho que na vida comum já somos racionais demais e a fantasia nos dá um certo equilíbrio.

Jonatas – Você encara a ilustração, mesmo a que envolve elementos de fantasia, como uma forma de expressar uma perspectiva do mundo?

André Martuscelli Do Amaral: Sempre, pois toda forma de expressão é pessoal em primeiro momento porque sai de dentro de nós e mundial porque somos o resultado de experiências externas que refletem em nós mesmos. É como se inspirássemos pelo que existe no mundo e expirássemos para o mundo o que existe em nós. Da mesma forma, outros artistas fazem o mesmo e o que antes havia em nossas mentes agora também faz parte do mundo para que outras pessoas se inspirem também, então acho muito difícil que por mais fantasioso que seja, não tenha nenhuma perspectiva sobre o mundo.

Diante da perspectiva proporcionada por essas entrevistas, é evidente que o mercado de ilustrações virtual é tão embebido de legítima arte, concebida por artistas que tem na ilustração não apenas um ganha pão, mas acima disso uma vocação. Por outro lado este novo mercado é mais acessível a pessoas comuns, permitindo a qualquer pessoa, disposta a pagar um preço justo, ter sua própria arte exclusiva.

Conheça mais sobre o trabalho dos artistas entrevistados:

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