Privacidade na Era do Compartilhamento

A linha entre necessidade e  desejo

A privacidade é uma importante pauta a ser considerada numa realidade em que somos incentivados a compartilhar todos os momentos de nossas vidas.

Num universo de mais sete bilhões de seres humanos, segundo levantamento do Banco Mundial de 2017, os meios de comunicação alcançaram um singular alcance global. A Internet, popularmente chamada Rede Mundial de Computadores, permite à metade desta população, favorecida por fatores socioeconômicos, meios para compartilhar um volume de informações nunca antes imaginado. Contudo, diferentemente das idealizações do mundo pós-guerra em que foi concebida, a Internet tornou-se uma nova camada de vida humana e não um simples meio de comunicação militar ou acadêmico.

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Uma nova camada na vida humana

Blogs, vlogs, mídias sociais e uma variedade de recursos de compartilhamento permite a cada pessoa munida de um acesso à internet ser não apenas consumidor, mas produtor de conteúdo disponível a todos os demais usuários. Este poder adquiriu, em especial as mídias sociais, um papel de destaque no cotidiano humano, com a oferta de um leque de recursos de mídia, que vão dos simples textos e fotos a vídeos e transmissões ao vivo.

Evidência de como as mídias estão incorporadas à vida humana, pode-se constatar ao analisar a maior delas: o Facebook. Sozinha, ela congrega, segundo dados do próprio Facebook, mais de dois bilhões de usuários ativos, ou seja, metade da população mundial de usuários da internet. Este capital humano faz desta mídia social mais influente do que corporações de mídia mais antigas, como redes de TV e jornais, se tornando, por exemplo, pivô em eleições presidenciais norte-americanas e rival da onisciente Google.

Data from We Are Social

Todavia, mais do que volume de usuários, compreender a rotina humana na internet carece de que se perceba a rede como uma extensão de nosso mundo, no qual despendemos tempo de nossas vidas.

A relevância da vida online

Ao falarmos de tempo, segundo dados da We Are Social, o internauta médio gasta seis horas por dia online,  ou seja, um quarto do tempo do seu dia. Este dado deixa clara a relevância da internet na vida do homem moderno, pois o tempo é , sem dúvida, o bem mais precioso de um ser humano, expresso na forma de sua atenção, é aquilo a que ele dedica seu tempo.

A face da vida humana na Internet é , cotidianamente, notada em feeds de mídias como Facebook e Instagram. Estas tornaram-se, ainda segundo dados da We Are Social, os principais meios pelo quais as pessoas compartilham suas rotinas, pensamentos, alegrias,  frustrações e realizações.

A cultura de compartilhamento, no entanto, trouxe um dilema: quais os limites entre a exposição e a vida privada? Esta pergunta, alimentada por amostras de maus hábitos de futilidades, excessiva exposição da vida íntima e, sobretudo, escândalos em todas as esferas da sociedade, nos leva a pensar se a privacidade está em xeque. Isto se deve, em especial, à sensação de que existe uma constante pressão social para alimentar as mídias sociais, de que a vida cotidiana é a cada dia mais pública e a ideia de que pessoas antes anônimas têm suas vidas acompanhadas, como estrelas em reality shows. Mas seria isto verdade?

Mídias sociais e a identidade

Frente a esta aparente tendência de uma busca de superexposição, em entrevista, o psicólogo Tadeu Dantas explica como as redes sociais têm seu papel na vida humana.

Jonatas: Hoje, existe uma tendência a um comportamento de superexposição em mídias sociais, em especial em mídias visuais como o Instagram, o que você acredita que leva a esta busca?

Tadeu Dantas: Tudo que é postado em redes sociais guarda uma intenção, que pode ser consciente ou não para quem posta. Pode ser para reforçar status, como festas, viagens, bens materiais e mesmo aquilo que, a princípio, não pareça remeter a isso, pode guardar um significado para um grupo restrito. Por exemplo, para geeks, livros, filmes, Action Figures, guardam mais relevância para esse subgrupo do que uma balada.  A exposição também serve como uma forma de afirmação da personalidade, nós não somos necessariamente o que nossos perfis no Facebook, Instagram ou Twitter levam a crer, mas podemos utilizar nossos posts para reforçar como gostaríamos de ser vistos pelos outros. Nós sempre buscamos coerência no mundo e em nossa personalidade com nossas crenças que são construídas desde o nascimento, ainda que esse processo não seja inteiramente consciente.

Jonatas: De que forma você acredita que a maneira como lidamos com a privacidade está ligada a uma dificuldade dos indivíduos em lidar com a sua própria identidade?

Tadeu Dantas: A privacidade, de maneira bem grosseira, diz respeito a coisas que não são públicas, cujo acesso é restrito. Esse conceito é algo muito novo na história humana, se observarmos sociedades tradicionais, quase não há um espaço individual privado, diferente de hoje. Não acredito que alguém que se exponha mais tenha dificuldades com sua identidade, pessoas diferentes têm necessidades diferentes.

Outra coisa que devemos considerar é que as redes sociais criam uma falsa percepção de privacidade, na verdade, são espaços públicos, tudo que você posta pode ser acessado por qualquer um, mesmo que selecione quem pode ver, aquilo pode facilmente “vazar”.

Jonatas: Resgatando o conceito de que a exposição das mídias está relacionada à percepção da própria identidade, podemos afirmar que compartilhar deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade?

Tadeu Dantas: É algo bem complexo. Determinadas pessoas se sentem mais compelidas a se exporem mais por diversos motivos, tais quais aqueles que mencionei anteriormente. Sempre há a opção de não se expor, mas, acredito eu, na maioria das vezes, as pessoas não estão inteiramente conscientes de como suas postagens atuam como expressão de personalidade.

Jonatas: O conceito de privacidade se transformou com o tempo, como você bem disse, logo os chamados “nativos digitais” tem uma percepção diferente da privacidade do que as gerações anteriores. Você acredita que tendo uma grande gama de mecanismos para manutenção da sua privacidade, mas em contrapartida sendo constantemente convidados a compartilhar, eles terão uma percepção tardia de atribuição de valor com relação à privacidade? Ou mesmo uma abstração mais clara do que ela significa ou não em suas vidas?

Tadeu Dantas: Depende muito do contexto e da cultura da pessoa. Vejo muitos jovens evitando redes sociais nas quais os pais, avós e demais familiares estão presentes. Quem possui uma consciência maior de como as redes atuam, controla melhor a ferramenta e sabe quando se expor é mais benéfico. É bem difícil traçar uma regra, mas observe que os mais jovens, que já cresceram inseridos nesse contexto digital, têm uma compreensão maior dessas regras implícitas do mundo digital, diferente de seus pais e avôs. Essas gerações mais jovens têm um contato intenso com as redes sociais desde muito cedo. Mas, apesar de compreenderem como devem interagir nesses meios, os jovens ainda são muito propensos a se exporem de maneira grave, o que pode vir a prejudicar de maneira irreversível suas vidas. A discussão sobre esses casos, que abarcam muitas outras questões culturais, ajuda a conscientizar sobre o que pode ser exposto ou não no ambiente digital e as consequências disso.

Jonatas: Então, a dificuldade em balancear privacidade e exposição seria fruto de uma falta de adaptabilidade ao contexto das mídias sociais? Seria então a superexposição não uma regra de comportamento, mas o sinal da falta de uma ambientação?

Tadeu Dantas: A forma como as redes sociais foram desenhadas favorece a exposição, não tenho dúvidas disso. Afinal, elas sobrevivem do conteúdo que fornecemos gratuitamente, o quanto mais nos expomos, melhor. Junto a isso temos uma tendência a favorecer conteúdos “espetaculosos”, isso não é novo, mas é especialmente forte hoje devido aos algoritmos.

Nesse meio, aquilo que se destaca cacofonia de tantos conteúdos ganha relevância pelo seu conteúdo que não necessariamente é algo bom, mas chama a atenção dos demais e assim é validade, gerando um ciclo. Quem tem uma pericia maior nesse meio acaba ganhando, vide os influencers e youtubers, compartilhar suas vidas para eles já se tornou um negócio muito lucrativo.

A importância da privacidade nos relacionamentos

Diante desta nova perspectiva, chegamos a uma questão fundamental, dentro deste contexto, como fica a privacidade nos relacionamentos humanos, impulsionados pela Internet e, em especial, pelas mídias sociais? Para responder esta questão, perguntamos ao escritor Dado Moura, autor de livros de relacionamento:

Jonatas: Com todas as possibilidade de compartilhamento que estão disponíveis, qual a importância da privacidade dentro do contexto dos relacionamentos?

Dado Moura: No meu, conceito, a privacidade é um direito e, dentro disso, eu posso avaliar se as pessoas podem ou não tomar conhecimento daquilo que eu penso ou faço.

Na vida real, se eu tenho interesse em saber onde você foi passear no fim de semana, normalmente, eu vou perguntar. Daí fica a seu cargo julgar se eu tenho ou não direito de saber da sua particularidade.

Mas, aquilo que vemos nas mídias não reflete isso. As pessoas têm a necessidade de abrir para todo mundo aquilo que têm feito. Com isso, a gente toma conhecimento sobre aquilo que Maria comeu no jantar, onde o João foi passar a lua de mel, quem está em um novo relacionamento, etc… Não tenho nada contra aquelas pessoas que querem divulgar nas mídias, o aniversário de alguém, a roupa nova que comprou, postar a viagem que está fazendo ou a comida que está degustando, se isso foi o objetivo da pessoa em tornar público o seu dia a dia ou se ela está sendo remunerada para divulgar determinada marca. Mas convenhamos que na vida real, ninguém sai contando até  para o amigo do meu amigo, que para mim pode ser um desconhecido, que celebrou as bodas no restaurante X ao som de violinos e vinhos.

O primeiro conceito que precisamos ter sobre essa ou aquela mídia diz respeito ao objetivo que aplicamos a elas para nossa vida. Então, a pessoa tem que ter em mente qual a função que ela quer dar para determinada mídia. Em que aquilo vai ajudar a divulgar determinado trabalho, formar uma opinião ou estimular conhecimento sobre determinado assunto. Diante dessa premissa, automaticamente, cria-se um filtro sobre as demais coisas que fazem parte da vida pessoal do individuo e que não condiz com o objetivo que ela tem quando se inscreveu em determinada plataforma. 

Dentro de um relacionamento, seja de amizade ou em qualquer outro tipo, as pessoas passam a compartilhar coisas à medida que o envolvimento permite. Isso é sabedoria.

Jonatas: Como você encara a crença de que privacidade é uma forma de fuga, que dentro de um contexto de confiança mútua deve existir renúncia de privacidade, como prova de comprometimento e fidelidade?

Dado Moura: Eu discordo dessa afirmação. Pois vejo a privacidade como um direito de reserva pessoal. Isso não significa que essa reserva não possa ser revelada se a pessoa com quem me relaciono solicitar. Então, há coisas que eu posso considerar pessoal, mas não necessariamente inviolável à pessoa a quem eu me relaciono.

Mas vejo também que isso depende muito da maturidade das pessoas que estão envolvidas num relacionamento. Eu tenho muito respeito pela privacidade alheia e se algo parecer sinistro eu pergunto.

Assim obtemos importantes conceitos sobre a privacidade inseridos nas mídias sociais. Como Dado Moura enfatizou: “O primeiro conceito que precisamos ter sobre essa ou aquela mídia diz respeito ao objetivo que aplicamos a elas para nossa vida”. Enfim, não somos escravos do rio de feeds, compartilhar é sempre uma opção. Não devemos fazê-lo para nos sentir ambientados, muito menos para agradar as pessoas com quem nos relacionamos, como muito bem conceitou Tadeu Dantas: “Os relacionamentos saudáveis exigem posturas maduras, que envolvem respeito à individualidade e à privacidade do outro”.

Leia mais sobre o trabalho e obras de Dado Moura: http://meurelacionamento.net

 

 

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