Evento Beba Melhor

Sobre paixão, sonho e realização.

O mercado da cerveja artesanal está em crescimento, mesmo em meio à crise econômica em que o país se encontra. Em 2017, o número de cervejarias artesanais no Brasil aumentou em 37,7%, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Com esse avanço, espera-se que surjam mais eventos com a temática da cerveja artesanal, o evento assunto da vez foi Beba Melhor.

Organizado por Janaína Kalil, co-fundadora da Cervejaria Baroneza, o evento nos traz mais do que apenas cervejas artesanais, food trucks e música ao vivo, presenteia-nos com uma bagagem de paixão pela cervejaria, como explica a própria organizadora:

Janaina Kalil
“…Eu trabalhei por quatorze anos como produtora de grandes eventos em todo Vale do Paraíba e Sul Fluminense e aí eu achei que chegou a hora de fazer um evento todo meu! Um evento que eu pudesse mostrar um pouco do que eu sei fazer, né? Eu falo que é meu primeiro evento autoral e nessa vez nós já estamos na segunda edição…”

Ricardo, marido de Janaina e criador da cerveja artesanal Baroneza começou o hobby da produção de cerveja em segredo, conta Janaína, de forma descontraída:

Janaina Kalil
“…Surgiu como um hobby do Ricardo e eu era contra, e hoje a gente conta essa história pra todo mundo e todo mundo ri porque hoje eu sou tão incentivadora que fiz um festival para que ele participasse. Então, ele começou a comprar tudo escondido e como muitos insumos da cerveja são importados, ele começou a comprar e chegavam umas caixas em casa, a caixa chegava e eu deixava em cima da mesa pra que quando ele chegasse ele abrisse e era coisa de cerveja e até então eu não sabia de nada.
Aí um dia chegou uma caixa e a caixa estava danificada, daí que a transportadora pediu que eu abrisse, para ver se o produto dentro da embalagem estava inteiro, quando eu abri a caixa, era uma tampa de vidro enorme. Eu pensei comigo, ‘Para que serve essa tampa?’, eu não entendi e fiquei sem entender a tampa.
Então, quando ele chegou em casa eu perguntei ‘Para que essa tampa?’ ai ele pegou e respondeu ‘-É QUE EU VOU FAZER UMA CERVEJA, ASSIM, POR HOBBY’.
Eu chamei ele de louco e aí ficou uma semana da gente em atrito por causa da cerveja. Aí ele foi fazer a cerveja trinta dias para ficar pronto e aquelas coisas todas da cerveja e eu não entendia nada de cerveja artesanal e aí eu falei ‘O que é isso?’.
Eu via o negócio borbulhando em casa e coisa no meu freezer, e aí eu comecei a perguntar…”

Janaina Kalil
“…O dia que ficou pronta a cerveja e ele chegou pra mim e falou assim ‘A cerveja tá pronta, experimenta’ e o olho dele brilhava como se fosse um filho, aí eu experimentei a cerveja e me apaixonei, eu falei ‘Não acredito que você fez uma coisa tão boa, como é que é isso?’, foi aí que ele começou o hobby dele.”

Hoje, após mais ou menos quatro anos de ter começado este hobby, o evento surgiu além de por paixão, também pelo sentimento de necessidade de um evento do gênero em Guaratinguetá.

Ao questionar sobre outros motivos do evento, ficou claro que apesar do boom da cultura da cerveja artesanal, o Vale do Paraíba ainda está carente da disseminação dessa cultura.

Janaina Kalil
“…a gente já tinha a cerveja, já era comercializada em algumas outras cidades, mas aqui em Guará as pessoas não conheciam…”

O Potencial do Vale no mercado micro cervejeiro

Atualmente, o Vale do Paraíba tem alguns eventos de cerveja artesanal e com o surgimento de mais um caso de sucesso, o Beba Melhor, que já está em sua segunda edição, sendo que a primeira foi em junho de 2018, a cidade de Guaratinguetá se revela como uma região potencial para os produtores de cerveja artesanal.

Mesmo com um crescimento de 37,7% no número de cervejarias artesanais em 2017, em todas as conversas com os estandistas do evento, obtivemos a mesma resposta sobre a fatia da cerveja artesanal na produção cervejeira no Brasil. Yuri e Mauro assim explicaram:

Yuri
“Hoje, o mercado brasileiro de cervejas artesanais tem uns 2% da fatia de cervejas, nos Estados Unidos eles já chegaram a 10 ou 12%! Mas o mercado cervejeiro artesanal americano já está uns cinco a dez anos na frente do brasileiro.”

Reparem como as respostas são bem parecidas, mas como estes mestres cervejeiros tem noção do caminho que estão trilhando.

Mauro Alves
“O mercado brasileiro de cerveja artesanal não chega a 1% ainda, num total produzido, nos Estados Unidos esse total chega a 10%, então a gente ainda tem um longo caminho pela frente”

É claramente visível que o mercado e cultura das cervejas artesanais está em ascensão, ainda assim podemos observar que a produção da cerveja artesanal no Brasil tem uma porcentagem muito pequena em relação a outros países como os Estados Unidos. Mas de uma coisa temos certeza, é que esses produtores têm noção da luta que vem pela frente e estão preparados.

As Cervejarias Participantes.

O evento Beba Melhor contou com onze cervejarias artesanais:

  • Baroneza
  • Bless
  • Guyrá
  • Duley’s
  • Maritma
  • Roncaria
  • Jybá
  • Artéria
  • Osten
  • La Beer
  • Grilo Azul

E quando foi dito que é um evento que traz mais do que apenas cervejas artesanais, food-trucks e música ao vivo, estamos falando de cultura.

Janaina Kalil
“…cada vez que você encontra um mestre cervejeiro, pode ter certeza que ele vai ter o maior prazer do mundo em te explicar sobre as cervejas dele, sobre os estilos de cerveja, isso também é muito legal…”

Complementa Yuri a respeito dos mestres cervejeiros:

Yuri
“…do mesmo jeito que a gente tem essa cerveja no ponto de venda, no ponto de venda a pessoa não tem essa imersão cultural no mercado cervejeiro como é num evento desses…”

Em cada estande do Beba Melhor, uma história diferente, porque por detrás do rótulo e do nome, existe uma história de amor pela cerveja.

Com um mercado onde a comunidade do próprio é quem tem de se ajudar, surge aquela curiosidade: como é que essa pessoa decide fazer cerveja? Ao serem questionados sobre o assunto, as respostas foram bem similares e reveladoras.

Mauro Alves da cervejaria Bless, foi bem direto ao dizer: “Na realidade, começou como uma curiosidade e a gente foi surpreendido com os amigos comprando essa cerveja.”. De acordo com ele, todas garrafas de 300ml e todas elas vendidas. Eles começaram a produzir mais, estudar mais sobre cervejas artesanais e por fim o sucesso e o engajamento foram tamanhos, que provavelmente teremos um pub na região do Vale do Paraíba.

“…Nós, em sociedade com mais três cervejeiros, vamos abrir um pub no mercado municipal de Lorena, agora em outubro…” -Mauro Alves-

Outros, como Yuri da cervejaria Guyrá, começaram em ambientes diferentes, ele estava na faculdade e quando ele viu que seria coisa séria, até seu pai entrou no negócio.

Quando chega na hora de perguntar como surgiu essa ideia, a resposta pode ser coletiva entre muitos mestres cervejeiros, como muito bem expressou Yuri.

Yuri
“…A paixão. Fazer com que o hobby seja sua fonte de renda, viver daquilo que a gente ama…”

Com muitos momentos regados à cerveja artesanal e com essa paixão dos cervejeiros e cervejeiras, Mauro nos deu uma ótima visão de como acredita que o evento ajuda. Mais ainda, nos mostrou como o universo da cerveja artesanal é feito de diferenças e cooperatividade.

Mauro Alves
“O objetivo principal é a divulgação da cultura cervejeira artesanal, aqui nós temos onze cervejarias no festival, com certeza nós temos sabores diferentes. Um cervejeiro pode fazer o mesmo estilo de cerveja um do outro e elas saem diferentes, porque tem o toque pessoal do cervejeiro, essa é que é a beleza da cerveja artesanal, você nunca vai beber nada igual, mesmo que seja do mesmo estilo.
Festivais ainda têm poucos, esse aqui foi uma iniciativa que tem trazido muita alegria pra gente, pros cervejeiros e pra população que tem mais uma opção de entretenimento em cidades não tão grandes, onde se têm poucas coisas para fazer.”

No estande da cervejaria Guyrá por exemplo o Yuri contava para os visitantes uma breve história sobre a cervejaria Guyrá.

Uma breve adaptação da história da Guyrá contada pelo fundador e mestre cervejeiro Yuri.

“A Cervejaria Guyrá nasceu de um homebrew caseiro. Uma cervejaria que começamos na nossa república da faculdade, na UNIFEI.
Dessa cervejaria desenvolvemos rótulo da nossa English IPA, que é a Elefant IPA, nosso primeiro rótulo.

Partindo disso, hoje saíram, além da Guyrá, mais duas cervejarias, uma em Contagem e outra em Viçosa.

Guyrá, transcrito do Tupi, significa Guará, de Guaratinguetá, pois optamos por trazer o regionalismo da marca para o nome e esse regionalismo também foi aplicado a todos os nossos rótulos.

Nossa Lev Lager, que é a pilsen, tem o leão que é o brasão de armas da República Tcheca e a cor dele que é estilizada para levar as cores da bandeira da República Tcheca. A mesma coisa para nossa Red Leprechaun, que é um estilo irlandês, uma Irish Red Ale.

Depois temos a Elefant IPA, o elefante em homenagem a deusa Ganesha, deusa indiana da prosperidade, pois o estilo Indian Pale Ale na verdade foi criado da exportação de cervejas da Inglaterra para a Índia, quando a mesma era uma colônia inglesa. Para que a cerveja sobrevivesse a toda aquela viagem de navio, na época das grandes navegações, então eles acrescentavam lúpulo e isso deixava a cerveja mais amarga, mas também fazia com que sobrevivesse naquelas barricas de madeira. A mesma ideia para a Adler Weiss, nossa Weiss Beer.

E a Bear Califa, nossa Double IPA, estilo criado na década de noventa em uma cervejaria californiana, então em homenagem a ela, também trouxemos o urso da bandeira da Califórnia.

Todas elas trazem a história e o estilo onde foi criada.”

O surgimento de um evento como esses traz o poder da regionalização, que se mostrou um ponto extremamente importante, como destaca Yuri, da cervejaria Guyrá.

“Ontem mesmo teve um pessoal aqui, um produtor de lúpulo de Cruzeiro, tem uma especialidade de lúpulo que é exclusiva aqui da região que se chama mantiqueira, que ao mesmo tempo que o Vale do Paraíba está querendo se tornar uma potência cervejeira, nós aliados a eles estamos querendo criar um terroá no vale paraibano. Que o lúpulo daqui, seja para as cervejas daqui e vire uma referência nacional.” -Yuri-

Mais do que o poder da regionalização, alcance de público e construção de imagem de seus rótulos, os produtores de cerveja artesanal que participam de um evento tão bom como foi e é o Beba Melhor, também acreditam que promover e participar de eventos cervejeiros pode ajudá-los a lidar com a burocracia no ramo das microcervejarias existente no Brasil.

Durante nossa conversa, Mauro chegou a comentar sobre como uma micro cervejaria pode ser afetada.

Mauro Alves
“De qualquer forma também, a gente tem que ter uma ajuda governamental para conseguir legalizar, burocracia, modificação de requisitos, etc, porque não dá pra comparar um cervejeiro artesanal ou uma micro cervejaria, com uma grande que produz em larga escala. São conceitos completamente diferentes.”

Você não sai o mesmo de um evento assim, com música boa ao vivo, comida de qualidade, um ambiente extremamente familiar e muita cerveja artesanal.

O evento Beba Melhor deixa claro para qualquer visitante (ou curioso) que esses mestres cervejeiros não estão brincando e que sem dúvida alguma, o mercado da cerveja artesanal está se ampliando cada dia mais.

Imagem de capa oferecida por:
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